Eu e a Jordânia

Quando me vi namorando um jordaniano, eu sabia que um dia iria visitar o país – e fui. Não foi fácil, mas foi a melhor viagem da minha vida!


Eu conheci o Ala’a em Kiev, na Ucrânia, em março de 2018. Nós dois, junto com outros 30 e poucos voluntários do mundo inteiro, estávamos lá para realizar um treinamento para dar aula de inglês durante 3 semanas para crianças e adolescentes. Eu conheci um outro jordaniano antes – o Mohammad – e ele me apresentou o Ala’a. Quando a viagem acabou, já estávamos namorando. E queríamos visitar um ao outro o quanto antes.

Eu sempre tive vontade de conhecer o mundo árabe durante o Ramadã. Talvez por uma fantasia boba, algo que desde sempre ouvimos falar. Ele preferia que não, porque tudo fica de ponta cabeça e não faria sentido eu ir nessa época – no caso, em junho. Porém logo depois do Ramadã vem o Eid Al-Fitr, o feriado mais importante dos muçulmanos, e que portanto ele teria tempo de viajar pelo país comigo. Pois bem, ele então topou que eu fosse em junho para lá.

A viagem de Guarulhos fez escala em Frankfurt, onde visitei amigos e passei o dia. Mas o frio na barriga ia aumentando. Chegaria em Amã de madrugada, quase duas da manhã.

Para brasileiros, o visto deve ser tirado na hora. E uma ótima dica para quem vai é comprar com antecedência o chamado Jordan Pass – um “passaporte” que serve de ingresso para Petra e também inclui as taxas de visto. Você baixa no celular, é um QR Code que eles lêem na hora. Adianta muito o processo!

Enfim, era chegada a hora. Saí pelo portão de desembarques, e não demorou para avistar o Ala’a. A gente se abraçou muito, mas nada de dar beijo – lá não é bem-visto fazer isso em público. Tivemos que esperar chegar no carro para poder se beijar.

A essa altura já estava quase na hora do nascer do sol, e ele parou numa vendinha de beira de estrada para comprar algo rápido para eu comer. Dito e feito. Logo após ele comprar um café para ele e um chocolate para mim, comecei a ouvir aquele som. Que hipnotizante! Foi a primeira vez que ouvi a chamada para a reza, vinda de uma mesquita pequena logo ali.

Seguimos para um Airbnb que ele alugou. Ele morava com a família (os pais e quatro irmãos), e para eles eu era apenas uma amiga, dentre outros, que estava visitando. E no dia seguinte fui encontrá-los para meu primeiro iftar na Jordânia. Mas antes fui conhecer Amã com o Mohammad.


De cima para baixo, da esquerda para a direita: schmaghs pendurados numa loja, temperos à venda, eu e o Mohammad e uma vista da região central de Amã, de cima do Anfiteatro Romano.


A cidade é linda. E aquela cor de areia que os prédios têm quando pensamos no Oriente Médio? Pois tem mesmo! E fazia muito, muito calor. Eu usei um vestido, nada muito indiscreto, claro. E todo, todo mundo ficava me olhando. Eu nunca tive isso na vida! Fiquei meio impressionada. Não era um olhar lascivo ou agressivo. Era um olhar de curiosidade. Muito maluco. O Mohammad me explicou: eu era muito exótica para eles (olhos puxados do meu lado japonês, mas sou metade síria, com sobrancelha grossa bem desenhada, cintura fina e quadril largo)!

De noite, iftar. A família dele me recebeu com muitos sorrisos e simpatia. As irmãs cuidavam de mim como se eu fosse irmã delas. A casa era simples e pequena para tanta gente, mas fui entendendo aos poucos que não há muita horário de dormir ou de estar acordado, mesmo fora do Ramadã.


Comemos um prato típico da Palestina. A família Al’Sadi é de lá. Havia inclusive uma bandeira do país na parede, toda feita de lantejoulas! E tudo com a mão. No máximo podia usar uma colher.

Aos poucos eu fui descobrindo Amã. Cada canto tinha algo para se explorar. E era época de Copa do Mundo, então eu andava com uma bandana do Brasil amarrada na bolsa, o que me rendia muitas risadas com as pessoas que levantavam os braços e diziam, “Brasil!!!”.

De noite geralmente jantávamos juntos e encontrávamos o Qasim, amigo e colega de trabalho do Ala’a. E finalmente, chegou o Eid Al-Fitr.

A programação era ir visitar a família dele no norte da Jordânia, em Irbid. Fomos de carro, o pai dele, eu, as irmãs e o irmão do meio. Passamos por três tias – cada uma delas me ofereceu doces e um café com cardamomo com mais açúcar do que café. Cada casa era de um nível de tradição e conservadorismo diferente. Em uma delas eu conversei amplamente com os tios que falavam inglês. Em outra, eu tive que sair da sala porque eu era mulher – o primeiro choque cultural. A gente pensa que vai saber lidar, mas quando acontece, é algo maior que a gente. Foi bem revoltante.

Mas finalmente era chegada a hora de viajar. Eu, Qasim, Mohammad e Ala’a partimos para a primeira parada do nosso rolê pela Jordânia: Wadi Mujib, um vale estilo “A Múmia”, com paredes de pedra super lisas esculpidas pelo tempo e água que sobe e desce. O negócio é colocar um colete salva-vidas e ir subindo contra a correnteza, até chegar na cachoeira. O problema? A água estava super alta, e não dava pé em lugar nenhum. O negócio era nadar mesmo.


Da esquerda para a direita: nadando no Mar Morto, o churrasco, e eu coberta de lama!


Depois de lá, seguimos para uma das grandes atrações turísticas da Jordânia: o Mar Morto. Era ali perto. O problema é que eu estava completamente detonada pelos caldos que levei em Wadi Mujib, e a água salgada me fez arder por todos os poros. O Ala’a fez questão de me cobrir de lama do fundo do Mar Morto, aparentemente super saudável. Só parei de sofrer com a dor dos cortes e raladas depois da ducha de água doce.

Seguimos viagem para uma espécie de tenda improvisada logo ali, onde fizemos um churrasco bem gostoso, à beira do Mar Morto. Era um calor insuportável, mesmo à noite. Parecia que estávamos dentro de uma panela de pressão, e o ar não se movia nem um centímetro.

Partimos em seguida para o sul do país: Aqaba. Dormimos na praia, meio acampados. O mergulho não deu certo porque eu não iria enxergar nada sem óculos, então seguimos para o deserto de Wadi Rum, que também fica ao sul do país.

De cima para baixo, da esquerda para a direita: uma das refeições do acampamento, a vista externa do acampamento, uma vista da praia de Aqaba, e o jogo do Brasil, que assistimos em um bar de shisha perto de Wadi Rum.


O lugar tem uma aparência bastante inóspita. As areias são de tom avermelhado, o que o tornou cenário perfeito para cenas de Marte do filme Perdido em Marte. Ficamos hospedados em um acampamento beduíno, em tendas cinematográficas. Comemos super, super bem. E o lugar tinha um banheiro de verdade – enorme alívio tomar um banho de chuveiro e sabonete, depois daquela jornada. Andamos de carro pelo deserto, os meninos queriam fazer manobras radicais com o 4x4 que estávamos usando, e de noite vimos mais estrelas do que se pode imaginar.

E no dia seguinte seguimos para o ponto alto da viagem: Petra.


Não há palavras para descrever aquele lugar. É embasbacante. Vimos pouco do lugar porque estava muito calor e eles já conheciam boa parte. Mas é de cair o queixo.

De lá seguimos de volta para o norte, passando rapidamente por Ajloon, onde visitamos o castelo (lindo!), e seguimos para Amã.

A segunda parte da viagem foi mais branda. O Ala’a trabalhando durante o dia e a gente se vendo à noite; eu explorando Amã, e me tornando cada vez mais íntima da cidade. O Jordan Museum é imperdível, apesar de figurar pouco em guias e recomendações. Lá estão alguns dos impressionantes manuscritos do Mar Morto, e algumas das estátuas humanas mais antigas da história. Também recomendo muito a Jordan National Gallery of Fine Arts, uma galeria pequena mas com uma coleção bem encantadora, e um café delicioso no terraço com vista para um dos bairros mais bacanas da cidade.

De cima para baixo, esquerda para a direita: o Anfiteatro Romano de Amã, um pote de sorvete árabe delicioso, quatro fotos da Citadela de Amã, uma das mais antigas estátuas humanóides da história, os manuscritos do Mar Morto e um prato típico que aprendi a fazer: charutos de folha de uva (chamados por lá de dewali) com mini abobrinhas recheadas e limão.

Há diversas lojas que valem a visita também. A Jobedu é uma marca local que faz camisetas, moletons, adesivos, cadernos, posters, tudo com escrita árabe bem estilizada, e também licencia produtos da Marvel, Star Wars e Disney para produção em estilo árabe. A rainha Rania é a criadora e mantenedora do Jordan River Foundation, que promove a produção de artesanato e peças de arte locais de altíssimo nível e excelente curadoria. Há pequenos cafés que vendem chás deliciosos, e a loja da Jordan National Gallery of Fine Arts é imperdível, vende louças com escritos árabes, jóias, e outras peças de altíssimo nível.

E é claro, não poderia encerrar esse texto sem falar da comida! O prato nacional da Jordânia é o mansaf, um cozido de carneiro na coalhada, servido sobre arroz, com amêndoas e servido com pão. Essa coalhada é de um tipo especial, se chama jameed – não é fácil de encontrar fora de lá. Portanto o prato fica restrito à Jordânia, mesmo. Não perca! E coma como a tradição pede: com as mãos!

Da esquerda para a direita: mansaf, kunafa e uma caneca de jameed, que eles servem assim também!


Outra delícia local, comum a todos os países árabes porém cada qual com a sua versão, é o doce Kunafa. Feito de queijo bem derretido e semolina, com uma calda bem doce e amêndoas ou pistaches. É de lamber os dedos.

Depois de três semanas lá eu já estava me sentindo bastante íntima de Amã e da cultura local. Claro que não foi fácil entrar na lógica árabe de ser mulher, e alguns momentos de choque cultural foram bem difíceis – ter que sair da sala por ser mulher, ou estar o tempo inteiro separada do Ala’a em um casamento da prima dele, e ter que usar bermuda e camiseta no mergulho no Mar Morto, em Wadi Mujib e nas termas de Ma’an. Mas são coisas que precisamos respeitar se quisermos nos aventurar em terras árabes. E a Jordânia é um país muito mente aberta, e fascinante. Recomendo muito!

Eu, Fidaa, Emad, Esraa e Ala'a no caminho entre Amã e Irbid


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Ana Key Kapaz é aluna do Centro da Língua Árabe e também é a responsável pela nossa comunicação e mídia. Metade japonesa, metade síria, ela se formou em Cinema, fez mestrado em Romanística na Alemanha e trabalha com design gráfico, tradução e podcasts. O árabe é a décima língua que ela estuda. Ela contou um pouco sobre a viagem à Jordânia na live com a Yamam, que pode ser vista aqui!

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